“Não há quem não conheça esse fenômeno”. É assim que Charles Darwin, pai da teoria revolucionista, descreve a arte de fazer desenhos na própria pele. Popularmente conhecido como tattoo, o nome surgiu quando o navegador e explorador inglês James Cook  em 1769, desembarcou com sua tripulação  nas Ilhas Polinésias – Taiti, e perceberam que a população local andava sem roupas e cheia de desenhos na própria pele (o modo de fazer é o mesmo até hoje: uma agulha perfura a pele e injeta uma tinta preta). Em um de seus relatos, contou o  que tinha visto e as intitulou de tattoo( no idioma do Taiti, significa desenho no corpo).

Como símbolo de admiração, os marinheiros que surgiram pós capitão Cook, se tatuavam como sinal de valentia e prova de todas suas viagens pelo mundo.Mas a história vem de antes.

INÍCIO

Em 1991, foi descoberta uma múmia,de aproximadamente 5,3 mil anos de idade, com linhas azuis desenhadas na pele. Além dela, outras mais foram encontradas ao longo do tempo, também com as tattoos.

A seguir, foto da múmia da princesa  Princesa Ukok do Altai, encontrada em 1993 por arqueólogos e, hoje, exposta no Museu Nacional da República do Altai.

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Princesa Ukok do Altai, que viveu há 25 séculos.

A tatuagem possuía e ainda possui diversos significados de diferentes procedências. Para os primitivos, era usada para registrar sua cronologia e biologia. Para os nazistas, uma vez que era vista como sinônimo de poder, usavam a tatuagem como castigo, marcando os judeus para controlá-los e também ofenderem sua religião, que a proíbe. Assim como os romanos, que tatuavam seus escravos. Dessa forma também, mostravam em qual grupo pertenciam ou simplesmente uma forma de demonstrar sua personalidade.

Resumindo, visto antes como um ritual de sacrifício, rebeldia e marginalidade, a tatuagem hoje virou uma coisa própria, singular. A pessoa faz para eternizar um momento, por estética e por muitos outros motivos. -A tatuagem é uma forma de comunicação não verbal que oferece informação instantânea – Prof. Ana Matilde Pacheco Chaves (psicóloga social do Instituto de Psicologia da USP).

A seguir, a cronologia da história antiga da tatuagem:

Entre 2160 e 1994 a.C:mulheres de múmias egípcias possuíam  traços e inscrições na região do abdômen.

-Há mais de 2.400 anos:Foram encontradas múmias nas montanhas de Altais, na Sibéria, com ombros tatuados e animais reais e imaginários.

Entre 509 a.C e 27 a.C:Os imperadores romanos determinam que, para não serem confundidos com súditos mais bem afortunados, prisioneiros e escravos sejam tatuados

– 787: Sob a alegação de ser coisa do demônio, o papa Adriano I proíbe as pessoas de se tatuarem

– Entre os séculos 15 e 17: Durante a invasão da Bósnia e Herzegovina pelos turcos otomanos, os católicos tatuavam cruzes como forma de evitar ter de rezar para Alá

– 1600: Com o fim das guerras feudais no Japão, os serviços dos samurais tornaram-se desnecessários. Surge, então, a Yakuza, a máfia japonesa

– 1769: Em expedição à Polinésia, o navegador inglês James Cook nota a tradição local de marcar o corpo com tinta. Na língua local, chamam isso de “tatao”

– Entre 1831 e 1836: A bordo do HMS Beagle, Charles Darwin registra que a maioria dos povos do planeta conheciam ou utilizavam algum tipo de tatuagem

– 1891: O americano Samuel O’Reilly patenteia a máquina de tatuar. Trata-se de uma adaptação de uma invenção de Thomas Edison

COMPRAÇÃO COM O ATUAL

– Antigamente, as tatuagens eram decisões tomadas em conjunto, para marcar algo. Registrar um acontecimento, diferenciar tribos e até mesmo reconhecer logo de cara um ritual. Era uma marca de identificação, o que hoje em dia não mais necessariamente. A tatuagem se tornou algo muito individual, com um significado único e que nem sempre é feita para as pessoas verem, é algo que ela quer registrar, independente do motivo. É único. A estudante de Design, Thais Nunes, 19 anos, confirma este rumo pessoal que a tatuagem vem assumindo nos tempos de hoje.

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Todas as dez tatuagens que tem pelo corpo,  possuem um significado e completa: “Remetem a minha personalidade, as coisas pelas quais já passei, as pessoas que me marcaram e até mesmo as fases da minha vida, mesmo sendo nova! Gosto de todas elas e posso ser convicta ao afirmar que, por mais que os desenhos fiquem ultrapassados ou que a minha pele” enrugue”, eu quero mesmo que tudo isso aconteça porque quero sentir que foi tudo de verdade, pra valer mesmo…”. Quando o assunto é sociedade, Thais logo afirma que a nossa pinta-se como moderna e não preconceituosa, mas não é o que acontece.  O preconceito existe e, para algumas pessoas, isso se torna até uma barreira. Deixa claro que o caráter e a capacidade não podem ser julgados pelo visual e que ainda existem muitas pedras pela frente até conquistar o “entendimento”.

Apesar da individualidade, hoje a tatuagem se tornou algo comum, e feita muitas vezes por simples estética, sem ter um significado expressivo, mas por ter se tornado algo “cool” na sociedade.

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Jéssica Sonoda, 21 anos, estudante de negócios da moda, comenta que suas tatuagens não possuem nenhum significado, apenas uma feita na coxa que ela mesma intitulou como “ tattoo da amizade”. A estudante também possui uma tatuagem em um lugar pouco convencional, na parte lateral da cabeça e finaliza :“ Tatuei a cabeça porque quis, por gostar muito de tatuagem, da estética e que hoje no Brasil a aceitação da tatuagem está melhor. A classe média alta encara a tatuagem como uma arte. Possuem uma visão mais aberta, diferente das pessoas com poder aquisitivo baixo, que  possuem a mente mais fechada, como se quem tivesse tattoo fosse vagabundo sabe? Claro que salva suas exceções, sempre.” Muito mais que o preconceito com alguém apenas por ter tatuagem, são aqueles que julgam sem ao menos ter conhecimento sobre o que o desenho representa, ou não.

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Luciana Avanço, 19 anos, estudante de Gestão Ambiental, possui o desenho de três patas de cachorro na nuca. Muitas pessoas ao olhar, julgam por banal, um desenho que jamais faria sentido. Mas para a estudante, representa uma parte da família que a deixou. “ Essa tatuagem significa uma homenagem às minhas 3 rottweilers, cada uma tem uma importância, desde salvar a vida de alguém da família até transmitir sentimentos bons”.

SOCIEDADE X TATUAGEM

Além da visão da sociedade sobre os tatuados, como estas próprias pessoas se enxergam inseridas no ambiente em que vivem? “Uma pessoa normal. Trabalho para sustentar minha casa, minha esposa, meu filho que irá nascer. Sou apenas fisicamente ‘modificado’”; foi o que respondeu o tatuador Gabriel Bazziche, 20 anos, que, além de ter seu corpo tatuado, depende financeiramente da propagação dessa tendência.

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Gabriel afirma nunca ter sofrido qualquer tipo de preconceito explícito, porém, acredita nunca ser prioridade para ser atendido em lojas, por exemplo. Além disso, o olhar de reprovação e julgamento de algumas pessoas o incomoda: “Muitos julgam sem conhecer devido à aparência. Nunca fui desrespeitado, mas posso perceber quando as pessoas me olham diferente”.

A tatuagem é síntese de vida também para o rapper carioca Maré Martins, que transformou em poesia sua paixão por tatuagens femininas com a mistura do Hip Hop, Jazz e Bossa Nova. Com ela, surgiu o som “I Love Tattoo”, que deu origem ao nome da Mixtape.

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Maré conta que sua inspiração para este som veio de sempre estar atento a tudo ao seu redor. Por curtir muito arte urbana, ele a encara como história, e uniu isso com a sua paixão pelas mulheres tatuadas. “Acho linda essa arte em uma pele feminina e juntei o meu amor por elas com a minha vontade de fazer algo diferente e também minha indignação com o preconceito que o mercado de trabalho tem com as pessoas tatuadas.”, diz ele. Com dois CDs e mais de vinte mil cópias vendidas, o MC ainda é o dono da maior Fan Page do Facebook sobre tatuagem no Brasil, com mais 500 mil      seguidores.

Confira o som e  a página Tatuagens Femininas:

http://www.youtube.com/watch?v=FCXYHW3ktmM

http://www.facebook.com/TATTOOTATUAGENSFEMININAS?ref=ts&fref=ts

De outro lado temos quem enxergue o tatuado como muitas vezes ele imagina, Maria do Carmo Valle, 77 anos, dona de casa. Uma senhora católica, que não faz questão de se adaptar ao novo, gosta tudo do seu jeito e seu tempo, rejeita a tatuagem a qualquer custo. “Eu acho horrível, deprimente, quem usava isso era marinheiro de porto, há muitos anos… é uma coisa horrorosa, a pessoa nasce bonita e agride o corpo com isso, pra arrumar emprego é muito difícil, enfim, detesto tatuagem”. É uma visão de quem foi criada com outros costumes e valores, da qual não só a tatuagem, mas a ideia de se tatuar não faz sentido.

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